09 Jan

NO RUAS ARMAGÓRIUM.

 

 

Ele não entendia o que estava acontecendo. Lembrou-se de ter sido convidado para a grande sala do rei e de esbaldar-se em um banquete oferecido a todos os sacerdotes. Agora, estava acordando naquele lugar inóspito e deserto. O sol, inflamando o céu com seus raios poderosos, queimava sua carne impiedosamente. Seu corpo pálido e acostumado a um ambiente artificialmente refrigerado e na penumbra, sofria com aquele calor intenso e abafado.

Olhou em volta. Tudo eram pedras, areia e desolação. O calor… Ah! Aquele calor, ele tinha que se abrigar rapidamente ou sucumbiria em pouco tempo. Seus olhos fitavam o horizonte desolado em busca de abrigo. Viu ao longe uma caverna e, cambaleante, dirigiu-se pra lá. Jogou-se nas sombras e tocou os ombros que já ardiam e começavam a latejar. Tremia. Pensou logo que estaria com febre. Desacostumado aquelas condições sentia o pânico tomar conta de seu espírito.

O que teria acontecido? Aos poucos, sua mente começava a se organizar e os anos de doutrinação vinham em seu auxílio para ajudá-lo a entender. Fora convidado para o festim pelo Sumo-Sacerdote. Comparecera e participara do banquete, juntamente com Sua Majestade Egydium I. Porém, só agora, se lembrava que apenas ele bebera da taça oferecida pelo Grande Rei. Então era isso… Fora drogado, despido e transportado para o Ruas Amargórium. Fora banido!

Mas, por que? Sempre executara seus deveres com esmero e dedicação. Nenhum sacerdote tinha tantas mortes confirmadas quanto ele. Seus informantes espalhados por todas as cidades e aldeias de UATI eram os mais ativos e os mais precisos de todo o clero. O Grande Deus Olavus em sua face “O Decepador” sempre preferia incorporar-se nele. Não compreendia o que podia ter ofendido o Grande Rei.

Só se… Só poderia ser isso… Aquele ritual… Dias antes, havia presenciado um estranho ritual no templo. Um homem teve os olhos arrancados e a boca costurada; recebendo enormes quantidades de moedas de ouro. Logo depois foi entregue as “criaturas sem rosto”. Ele tinha sido avisado para não comparecer ao salão místico naquele dia. Pois o ritual só era acessível aos mais graduados sacerdotes. Ele havia testemunhado o ritual secreto do “Calae Bocus”. Estava sendo silenciado!

Desesperou-se, tudo fora um terrível mal entendido. Havia passado todo o dia colocando em ordem os livros sagrados e selecionando novas vítimas para futuros expurgos, e esquecera-se do aviso. E, distraído, entrara no salão proibido.

Sabia que aquele lugar maldito era habitado por muitos uerreagariânus que, como ele, haviam caído em desgraça por motivos vários e foram isolados ali. Durante o dia calor intenso, à noite frio penetrante e mortal. Encontrar com esses renegados significava a morte certa. Pois, embrutecidos pelas condições severas do lugar, eram lutadores ferozes e fortíssimos. E ele, acostumado a uma vida farta e mansa, estava muito longe de ser páreo para eles.

Absorto em seus pensamentos, nem notou o ruído vindo da entrada da caverna. Um grupo de renegados famintos o observava e antevia uma refeição farta. Assustou-se quando o líder destacando-se do grupo avançou em sua direção e o agarrou pelos cabelos. Debateu-se com todas as forças que lhe restavam. Mas as mãos daquele homem-fera eram como garras poderosas. A luz do sol penetrava tênue pela abertura da caverna e um raio incidiu sobre a imensa e reluzente lâmina que o selvagem segurava na outra mão. Enquanto seus olhos esbugalhados acompanhavam o brilho intenso em movimento, sua mente lembrava-se num átimo de segundo, de todas as vítimas que teve em suas próprias mãos. Como elas se debatiam, choravam e imploravam por suas vidas miseráveis. Sentiu o frio aço penetrando em sua pele fina e queimada. Tentou gritar, mas o sangue inundava sua garganta transformando seus gritos num grunhido horrível e abafado. Enquanto seu corpo caía ao chão, pode ver que os outros avançavam sobre ele, golpeando-o e retirando lascas de sua carne ainda viva e pulsante. Imerso em dores lancinantes e no limiar da morte, ainda pode pensar que todos que ele havia matado em nome do Grande Rei, deveriam ter passado pelo mesmo tormento atroz.

 

Compare preços de:

CD’s - DVD’s - Celulares - Câmeras Digitais - Bicicletas - Bonecas e Acessórios -

Brinquedos Educativos - Jogos - Para o Bebê

You can leave a response, or trackback from your own site.

14 Responses to “NO RUAS ARMAGÓRIUM.”

  1. 1
    Christiane Says:
    Parabéns pelo blog! Está muito bom!
    bjos!
  2. 2
    Jarbas Silva Says:
    Hmm… Seu conto parece se inserir no contexto de uma história maior. Seria o caso? É a continuação de outra história?

    Seria seu blog todo uma grande mitologia criada por você, na qual esta história se insere?

    Interessante seu texto… É de fácil leitura, e prende a atenção pela natureza misteriosa do conto.

    Quando pretende postar a continuação?

    Gostei do blog!

    Abraço!

  3. 3
    Thiago Barbosa Says:
    É companheiro…essa é mais do que batida, mas cai como uma luva: um dia da caça e o outro do caçador! Muito bom o conto, instigante…vai nessa levada que você se dá bem!
  4. 4
    Daniel dos Santos Says:
    Muito legal a descrição. Realmente, imagino o que se passa pela cabeça de um sacerdote: são muitas responsabilidades e renúncias, para estas pessoas indispensáveis àqueles que têm fé.
  5. 5
    Jefferson Barbosa Says:
    O melhor é mesmo parecendo que trata-se de uma continuação (o que eu não sei se é), entende-se a mensagem que estóra pretende passar. Capitulos isolados.

    Muito bom.

  6. 6
    Maiara Says:
    Curioso!
  7. 7
    Gugu Says:
    Ando sempre acompanhado seu blog, essa é uma das grandes postagens. Muito bom.
  8. 8
    Martins Says:
    Belo poste, gostei. Vc escreve muito bem….
    Feliz 2008..
  9. 9
    César Fernández Says:
    sempre ótimos os posts :D
  10. 10
    » No Ruas Armagórium. » LinkAtivo.com Says:
    [...] Descubra os acontecimentos que se seguiram em: Um Páis Chamado UATI. [...]
  11. 11
    Frank Says:
    Olá.
    vim te convidar para participar da promoção do blog Polvo Loko.
    Para acessar á página da promoção que ajudará seu blog a crescer ainda mais
    entre:
    http://polvoloko.blogspot.com

    Conto com sua presença!
    Abraços,
    Frank Morgan.

  12. 12
    tifongirl Says:
    Chiça! Um castigo tão duro só porque o coitado do homem tinha visto o que não devia… Por mera distracção.

    Estou curiosa por saber mais acerca dessa hóstil terra….Lembra-me os Anos 30 na Alemanha Nazi! LoL ;)

    Um grande abraço

  13. 13
    ...Raphael Says:
    Excelente conto, seria alguma continuação ???
    Muito bom mesmo agora vou voltar a ler mais os seus post pois fiquei intrigado com a maneira que você screve !! hehehe

    Abraço

  14. 14
    Gugu Says:
    Comentando, irei ler agora. Esse seu layout ficou muito bom.

Leave a Reply

© 2009 Um País Chamado UATI

Designed by NET-TEC Hosting -- Made free by Bettwäsche | Kaminofen | Kontaktlinsen

Bad Behavior has blocked 37 access attempts in the last 7 days.