27 Jan

MEUS AMORES EM UATI (I)

m


“M”

“M” era uma mulher belíssima, um corpo escultural; lábios carnudos e coxas grossas. Uma mulata descendente direta de guerreiros trazidos para UATI pelos ancestrais de Olavus Maximus. Durante a fundação do país. Eu era ainda muito novo, quase uma criança na Cancela. Mas ainda lembro-se dela, como se a tivesse conhecido ontem: Mulher feita e inteligente reinava absoluta e soberana nos sonhos e desejos de muitos homens locais.

Era do tipo “inatingível”. Desejada por muitos e por nenhum conquistada. Quando a conheci, foi amor e desejo a primeira vista. Mas, para meu espanto, logo vieram me informar que esta mulher era marcada. Eu não entendia o que queriam dizer com aquela afirmação. Era tão bela, tão inteligente e carinhosa com todos; como podia ser considerada uma “intocável”? Porém, logo que minhas investidas se fizeram notar, eu descobri o motivo de todo aquele pavor em torno dela e do porque a evitavam.

“M”, havia sido escolhida por um dos líderes menores da Cancela como consorte. Contudo, a mulher de personalidade forte e decidida, o rejeitara. Atingido em sua virilidade e ridicularizado por seus pares, ele começou a perseguí-la. Todos que ousavam aproximar-se dela, “desapareciam” na noite; tragados por agentes a seu serviço ou denunciados falsamente a Polícia Secreta. Os que tinham sorte eram levados à torre principal e apresentados ao carrasco local. Pelo menos tinham uma morte rápida. Os menos afortunados; iam parar nas minas de sal; nos sombrios subsolos da Cancela. Invariavelmente, eram atacados por feras que habitavam as sombrias profundezas do castelo ou fiavam logo doentes devido às péssimas condições de trabalho.

Freqüentemente, víamos o maldito andando por entre as fileiras de trabalhadores, indo ao encontro dela e realizando suas investidas sujas. Ela sempre o repelia. A coisa era tão escandalosa, que o assunto já havia sido comentado na corte. E o próprio Egydium I, mandara emissários para investigar o assunto. Afinal, tudo o que ele menos queria, era uma revolta popular em suas mãos. Se um nobre menor não conseguia controlar seus impulsos, era muito menos trabalhoso eliminá-lo, do que de gastar recursos imensos com uma rebelião e possíveis manifestações da comunidade internacional.

Mas a vil figura tinha influência e familiares em altos postos na corte. Sendo sempre avisado das possíveis investigações e dos deslocamentos dos emissários reais. Nessas ocasiões, sempre mantinha a família da pobre mulher sobre vigilância e a chantageava com a possibilidade de assassinar todos; e ela inclusive, se algo fosse falado.

Numa dessas ocasiões, encontrei “M” chorando desconsolada. Havia sofrido mais ameaças e investidas. Conversamos muito; e contou-me todo o calvário pelo qual passava. Estranhamente, esses laços surgidos entre nós, acabaram por nos aproximar cada vez mais. E, sem percebermos, já éramos amantes.

Como membro da nobreza, eu era intocável ao poder do maldito. E, se algum “acidente” me acontecesse no castelo, minha família o esmagaria como o verme que era. Assim, secretamente, comecei a planejar a fuga de “M” e de toda sua família, para uma aldeia nas terras controladas pelo meu clã. Lá, ela e os seus, se veriam livres do maldito e poderiam viver em paz. Mesmo sabendo que isso me faria perdê-la para sempre; uma vez que meus planos futuros não envolviam a volta para a terra natal. Mas; era o certo a fazer.

Tudo estava combinado. Os planos feitos e as providências tomadas. Uma unidade de guardas me esperava na entrada da Cancela e a conduziria ao local combinado para que, de lá, fosse transportada a segurança. Descemos as escadas e atravessamos o portão da guarda; antes de alcançarmos o pátio onde meus guardas esperavam, uma voz conhecida e traiçoeira chamou seu nome na escuridão: Era o maldito.

Senti-a estremecer. Seu rosto moreno e lindo ficou pálido e pensei que fosse desmaiar. A figura nefasta adiantou-se saindo das sombras e vinha acompanhada de vários Sacerdotes Circulares. Contra eles, nada nem ninguém em UATI tinha poder. O maldito a acusou de crimes contra a nação e a arrancou de meus braços. Fiz menção de enfrentá-lo. Mas “M”, entre lágrimas, disse apenas: “Não; salve minha família”.

O maldito a empurrou violentamente, proferindo impropérios, e arrastando-a pelo pátio, mergulhando na escuridão de onde saíra. Os sacerdotes foram com ele. Tentei tudo para libertá-la. Mas, alguns dias depois, informantes me contaram que ela fora executada no templo; naquela mesma noite. Até o fim, negara as acusações e tripudiara sobre os desejos do maldito. E o pior:

Eu ganhara um inimigo mortal.


Compare preços de:

CD’s - DVD’s - Celulares - Câmeras Digitais - Bicicletas - Bonecas e Acessórios -

Brinquedos Educativos - Jogos - Para o Bebê

You can leave a response, or trackback from your own site.

15 Responses to “MEUS AMORES EM UATI (I)”

  1. 1
    Dorian Says:
    A vida corporativa é um extrato da sociedade e as emoções, ambições, defeitos e virtudes estão todas lá representadas. Pode ser humano e desprezível ao mesmo tempo…
  2. 2
    Raphael Pacheco Says:
    Muito bom teu conto, a narrativa prende nossa atenção…
    Valeu pelo comentário, mas não tô tão depressivo assim não, é que o post de hj é um texto que eu escrevi em outra data e coincidiu de postar hj!

    abraço

  3. 3
    Calango Says:
    O texto tem uma boa construção narrativa e descritiva. A unção dos dois deixa o texto bom de ler, não confunde. Parece com os belos textos de antigamente.

    Bom blog e boa postagem. Uma criatividade e tanto.

    Abraço!

    http://calangonetnews.blogspot.com/

  4. 4
    Camila Says:
    acho que eu nao ia curti mto viver em Uati, mas em todos os casos deve ser um país mto loco, boa narrativa tem talento

    bjs

  5. 5
    Jarbas Silva Says:
    Mais um excelente texto, mestre Arthurius! Narativa envolvente… Gostei do toque de drama neste excerto da história.

    Uma pequena pergunta: Os contos são uma grande história linear, ou são mesmo apenas contos que guardam entre si uma correlação por pertencerem ao mesmo universo fictício - quero dizer, são fragmentos de uma história maior?

  6. 6
    Dragus Says:
    Triste fim para M.

    Chegou a encontrá-la após o sacrifício?

  7. 7
    negresco Says:
    gostei do conto!!!

    infelizmente nao acabou com um final feliz!!!

  8. 8
    Grijó Says:
    Certo, certo, mas é preciso um desfecho. A inimizade, proposta ao final (?) da história, vai ser desenvolvida, não?
    A narrativa é direta, mas acho que vc pode eleiminar alguns lugares-comuns, coisas do tipo “corpo escultural” ou “amor e desejo à primeira vista”.
    claro que é apenas uma opinião.
    Mas voltarei para ler o resto.
  9. 9
    Gilberto Puppet Says:
    Disque M Para Matar.

    Parece que o destino das mulheres da Uati não difere muito daquelas dos tempos de Inquisição…

    Ótimo blog.
    Abraços

  10. 10
    César Says:
    Não dá mesmo pra escapar desse tal de amor, até em UATI! O_O
  11. 11
    tifongirl Says:
    Que grande história de amor! Adorei a parte final…
    Mais um grande exemplo do teu dom para a escrita!

    Um abraço para ti e para os teus xD

    P.S.: Fantástico template, gostei imenso…!

  12. 12
    Tinne Says:
    Olá,
    Passei por aqui…
    Seus textos são realmente muito
    bem escritos. Parabéns!!!
    Beijo,
    Tinne
    (www.aimperatriz.blogspot.com)
  13. 13
    tifongirl Says:
    Oi, arthurius.

    Só para dizer que o teu blog está cada vez mais fixe! ;)

    Os outros também estão um máximo.

    Um grande abraço

  14. 14
    Osmar Says:
    Muito bom…
    e os cara nao deixavam a moça em paz..
    tb linda desse jeito…
    rsrs
    boa narrativa mano muito bom seu blog…e um dia visito uati!
  15. 15
    www Says:
    isso ai man

Leave a Reply

© 2009 Um País Chamado UATI

Designed by NET-TEC Hosting -- Made free by Bettwäsche | Kaminofen | Kontaktlinsen

Bad Behavior has blocked 37 access attempts in the last 7 days.