03 Feb

MEUS AMORES EM UATI. (II)


Meu Amores em UATI (II) - H


“H.”


“H” era um tipo diferente de mulher. Baixinha e bem proporcionada, seus pouco mais de um metro e sessenta, eram convertidos em curvas estonteantes, seios bem formatados e de róseos mamilos salientes, as coxas roliças forradas com uma pele alva e pelos naturalmente dourados, faziam qualquer um delirar. Fartos cabelos louros e um rosto, que parecia ter sido pintado por um grande mestre renascentista; cravejados com duas pedras preciosas azuis como olhos e uma boca sensualíssima que brilhava como um rubi de alta pureza.

Criada nas praias de UATI, “H” era como um pequeno bibelô de porcelana. Frágil, delicada, extremamente sensível, mas inteligente e sagaz. Usava o dialeto próprio das províncias do norte e, às vezes, isso se tornava quase um idioma particular. Tinha alguns problemas familiares; sua mãe sofria com uma doença rara e os custos do tratamento eram pagos pela Fundação UATI; uma entidade criada por Egydium I, como forma de aliviar a pressão internacional das organizações de direitos humanos.

Mas, como tudo em UATI, precisar de um suporte como este, automaticamente transformava o pobre indivíduo em refém do sistema e presa fácil para os capatazes e responsáveis pelas administrações locais. Se tivesse a sorte de ser uma mulher jovem e bonita, conseguiria o suporte necessário cedendo as investias sexuais do (ou dos) responsável pela aprovação.

Foi nessa situação que conheci “H”. Numa noite eu estava terminando meu turno quando percebi, no terraço acima do pátio principal da Cancela, uma figura delicada que parecia chorar compulsivamente. Estava sozinha. Aproximei-me e perguntei se ela precisava de algo; se se sentia mal ou se gostaria que eu chamasse alguém que conhecesse.

Quando ela ergueu o rosto, com aqueles olhos azuis marejados de lágrimas; tomou imediatamente conta de meu coração. Já haviam passado alguns meses desde que “M” desaparecera, e a solidão me atormentava naquele local sinistro.

Em poucos momentos de conversa, ela abriu-se completamente e disse o que causara sua tristeza: Aluisius Louisis, um mandatário local e membro da casta dos chefeteutes; a perseguia assim que seu pedido de financiamento do tratamento da mãe, chegara para aprovação. A proposta era a mesma de sempre: Autorização por sexo.

Ela negara. E como bom canalha; Aluisius, diante dela, rejeitou a proposta sem sequer verificar a validade do pedido. Além disso, jurou que sua recusa lhe custaria caro. Naquele mesmo dia, as retaliações começaram: Sua escala de trabalho foi alterada; foi transferida para um posto degradante e perigoso no lado sul da Cancela, onde as condições de trabalho produziam dezenas de doentes todos os anos.

Naquela noite, ela tinha resolvido ceder e estava ali preparando seu espírito para entregar-se. Mas disse-lhe que se aceitasse, as chantagens continuariam. E ela acabaria vendo-se usada como um objeto sexual por vários outros canalhas como Aluisius. Pois, uma das muitas histórias que se contavam dele, era de que compartilhava suas “conquistas” sexuais com outros abutres iguais a ele. Desesperada, ela me abraçou e disse que não sabia o que fazer. Pensara até em suicídio.

Nesse momento, uma idéia saltou em minha mente. Suicídio. Era isso.

Enviei uma mensagem a um amigo de confiança. Saímos da Cancela logo após a troca de turnos e nos dirigimos a casa dele; que já nos aguardava. Lá, já havia montado uma rota de fuga para um local seguro. “H” não entendia e, pacientemente, expliquei-a nosso plano:

Haveria um grande show nas proximidades da Cancela, financiado pelo nobre local com o intuito de aplacar os ânimos do populacho. Eu e “H”, iríamos e nos misturaríamos à multidão. Com o acordo prévio feito por meu amigo, um dos organizadores do espetáculo, com os artistas estrangeiros participantes; aos quais conhecia. Quando recolhessem o equipamento e retornassem a sua terra natal; “H” e sua família iriam com eles.

Assim ela escaparia do constante assédio e sua mãe teria uma chance de tratamento no novo país. O único problema era escapar de Aluisius e seus guardas até o fim do espetáculo.

No dia marcado, fomos ao evento e aguardamos ansiosos. Por algum motivo, a segurança no local estava mais rígida do que de costume. Havia boatos de que a Resistência tentaria atacar as autoridades presentes. Aquilo era mau. Se a segurança estava mais rígida, era quase certo que Aluisius estivesse lá. Mal pensei nisso e vi sua figura execrável na tribuna. Examinava a multidão cuidadosamente com um binóculo.

Instintivamente, deduzi que procurava “H”. Como tudo em UATI, as paredes na Cancela tinham mais ouvidos e línguas que qualquer ser vivo existente. Certamente fora alertado de nosso plano e toda aquela baboseira sobre ataque da Resistência, era apenas para justificar a caça a sua “gazela”.

E era verdade. Ao perceber “H” entre a multidão, comunicou-se com a guarda e as unidades de segurança começaram a fechar o cerco ao povo, empurrando todos para próximo ao enorme palco. Quando a coisa parecia totalmente perdida, os artistas começaram o espetáculo antes da hora marcada. Certamente a pedido de meu amigo.

A multidão extasiada começou a dançar e se agitar, tornando impossível contê-la. A confusão era enorme e um grupo começou a formar um “arrastão dançante”, que logo era composto por centenas de pessoas. A multidão se acotovelava e quando o arrastão passou por nós, a mão de “H” soltou-se da minha e fomos separados.

Procurei por ela no meio da multidão que pulava, cantava e se agitava. Mas não a encontrei. A confusão também reinava na tribuna e percebi que Aluisius esbravejava e gritava ordens e palavrões para todo lado. Percebi que ele não a havia capturado.

Saí dali o mais rápido possível e mergulhei na noite. No dia seguinte, meu amigo confirmou que “H” já estava em segurança, juntamente com sua família. A mãe recebera tratamento médico e tudo havia saído como planejamos.

Alguns anos depois, já no exílio, recebi uma carta dela. Estava feliz, casara-se e sua mãe ainda vivia. Nunca se esqueceu de mim e rezava para que, algum dia, a Resistência torna-se UATI um lugar melhor para se viver.




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12 Responses to “MEUS AMORES EM UATI. (II)”

  1. 1
    Gugu Says:
    Muito bom o texto. Vou dar uma passada pelas outras postagens também.
  2. 2
    Fer Pocow Says:
    Gostei do texto ele está muito bem escrito, mas eu gostei mesmo da maneira que você descreve as coisas, é sensacional.
  3. 3
    everaldoygor Says:
    Olá…
    H… Lembrei de GH - A paixão segundo GH da Clarice Lispector…
    Uma sucessão de eventos e até resitência… Ilustram essa preciosa e detalhada passagem de H em UATI… E por não dizer passagem em você…
    Ótimo texto!
    Abraços
    Everaldo Ygor
    http://outrasandancas.blogspot.com/
  4. 4
    Chris Says:
    Legal seu blog!
    Parabéns!
  5. 5
    Osmar Says:
    Cara muito bom…
    sempre seus textos sao loucos e cada vez mais kero conhecer uati…
    puxa do jeito que vc fala deve ter historia pra dedeu..
    parabens mano…

    http://bombadigital.blogspot.com/

  6. 6
    Lukkas Victtorino Sakssida Says:
    lendo sobre H senti saudade de uma certa R.
    só que R mora num país muito distante chamado Terra do Sol e fica bem abaixo da linha do equador…

    adorei o conto ……

    []s L.Sakssida

  7. 7
    Tavareli Says:
    Muito bom o texto! Ela é erótica mesmo! a descrição inicial diz tudo!
  8. 8
    tifongirl Says:
    Uauu…! Que história de espionagem mais comovente.
    Vais continuar a série?
    Espero que sim…As palavras nestes textos têm algo de feminista na sua essência…! LoL xD

    Estou só a brincar contigo.
    E como vão as coisas por aí no “Carnaval”? Eu, como vivo numa zona rural, não tenho assim tanto barulho como aí no “Rio..” ;)

    Um grande abraço e saudades da tifon

  9. 9
    niseloka Says:
    Aí L……………..
  10. 10
    Thiago Barbosa Says:
    É bom visitar o UATI, sempre encontramos textos de muita qualidade, como esse da mulher H. Gostei da nova cara do blog! Abraços!!!
  11. 11
    Carlinha Says:
    Nossa… adorei o seu blogger. Você manda muito bem (; Vou até lê os outros posts ^^

    Beeijus *;

  12. 12
    ED Says:
    se vc colocar uma estrutura de peça de teatro nesse texto vai dar pé! agora, acho q terá q sair da 1a pessoa, a narrativa!

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